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Quando o artigo volta…

O pior pesadelo de qualquer tradutor – ou cliente – é ter seu trabalho criticado ou rejeitado. Fora os casos em que o cliente tem razão e aponta falhas concretas, há casos em que o tradutor não recebe qualquer explicação sobre por que seu trabalho foi rejeitado. Um destes casos é artigos científicos ou acadêmicos. Quando o tradutor tiver sorte, o cliente enviará a mensagem dos editores que veio com o artigo rejeitado contendo todas as falhas detectadas. Quando não tiver sorte, o cliente simplesmente enviará uma mensagem dizendo que o trabalho foi rejeitado e pedindo uma solução.

Como fazer para que isto não aconteça? Quais medidas tomar?

Para começar, vamos definir o que o tradutor NÃO faz:

  • O tradutor NÃO revisa. É humanamente impossível revisar seu próprio trabalho. Isso deve ser feito por um REVISOR.
  • Ao menos que o cliente procure um especialista, o tradutor NÃO tem obrigação de conhecer a área do texto.
  • O tradutor NÃO altera estilos (arcaico, formal, informal, resumido, rebuscado). Se o texto tiver um determinado estilo, ele será mantido na tradução. Se o cliente quer outro estilo (menos enrolado ou formal), terá que alterar o original primeiro.
  • O tradutor NÃO localiza (localization) ou transcria (transcreation), ao menos que o cliente assim o peça e pague por esse serviço extra.

Agora, a definir o que o tradutor FAZ:

  • O tradutor interpreta. O que estiver lá, ficará lá em outro idioma.
  • O tutor adapta (na medida do possível) para que a interpretação seja compreensível para o público alvo.

Entendido, e agora?

Para reduzir a possibilidade de problemas futuros, existem certas coisas que o cliente deve fazer ANTES de enviar um artigo para tradução:

  1. Revisar o artigo no idioma original. Adaptá-lo à linguagem mais simples, clara e direta dos artigos em inglês. O mais importante é remover toda instância do seguinte:
    1. “Sendo que” – requer oração nova. Colocar ponto e iniciar uma oração nova.
    2. “Por isso,” e qualquer frase similar – geralmente são desnecessárias.
    3. Uso do passivo – usar “nós” ou só usar o passivo quando absolutamente necessário.
    4. Excesso de palavras – o que os editores chamam de “wordy”. Simplifique ao máximo sempre e sem dó. O importante é que fique claro.
    5. “Seus”, “estes”, etc. – em inglês devemos deixar claro que está fazendo o que. Colocar o pronome mesmo que repetitivo.

O artigo foi traduzido, como proceder?

Segundo, APÓS receber o artigo traduzido (supondo que trabalho junto com o tradutor esclarecendo dúvidas, etc.), e cliente deve fazer o seguinte:

  1. Enviar o artigo para revisão de um editor com conhecimento da área, preferencialmente nativo no idioma alvo (ao qual o artigo foi traduzido). Se isto não for possível (vale a pena o investimento e evita ter que refazer o trabalho), enviar para um autor com conhecimento da área que já teve artigos em inglês publicados.

O artigo voltou! O que faço?

Se mesmo depois de todo esse trabalho o artigo volta, os editores precisam explicar por que o artigo foi rejeitado. Só assim o trabalho poderá ser melhorado. É preciso deixar isto bem claro (tradutor) ou exigir que os editores (cliente) especifiquem os erros que acharam.

Este seria o caminho padrão da tradução, submissão e rejeição de um artigo.

Detectar possíveis motivos quando não há feedback

De acordo com minha experiência (milhares de artigos aceitos e clientes satisfeitos, mas cinco artigos rejeitados com e sem explicações), em alguns casos o artigo volta ou é rejeitado pelos autores ou examinadores (e até pela revista) e você não consegue achar uma só falha nele e ninguém consegue esclarecer por que não gostaram do seu trabalho. Os motivos que eu consegui detectar depois de muita insistência foram os seguintes:

  1. Autores estão acostumados à um determinado estilo e rejeitam qualquer outro estilo ou alternativa.
    1. Uma vez um autor ficou histérico porque usei old people ao invés de elderly num artigo. Ele simplesmente dizia que estava errado. Eu subitamente mostrei a ele que nas referências que eles mesmo colocou no final do artigo, todos os autores usaram old people no título dos trabalhos.
  2. As revistas e/ou autores só publicam ou leêm artigos traduzidos por brasileiros. Ai caímos no que nós tradutores chamamos de “texto abrasileirado”.
    1. Um autor criticou um parágrafo inteiro que eu tinha reformulado completamente. Pedi a ele que escrevesse o parágrafo do jeito que ele achasse que deveria ficar. O resultado foi tão abrasileirado e incorreto (construções que não existem em inglês), que tive que dizer a ele que não assinava o trabalho caso ele fizesse essa alteração.
  3. Os autores e os editores se acostumaram tanto com esse estilo que não conseguem aceitar um artigo traduzido de outra forma. Todo tradutor de artigos sabe que existem revistas nas quais as traduções são de má qualidade, mas muitos acabem se acostumando e aceitam alguns erros como padrão.
    1. Frases como “Foram realizadas oficinas…” são traduzidas como “Were held workshops…”. Quando você coloca “The researchers held workshops…” ou “Workshops were held…” eles acham incorreto.
  4. Acham que seu texto foi traduzido ao pé da letra. Vamos ser justos aqui. Muitos textos são extremamente científicos, cheios de termos e conceitos desconhecidos. Achar um tradutor que seja tão especialista na área quanto o autor é quase impossível. Aliás, essa exigência só costume ser padrão em agências muito grandes com milhares de tradutores em todas as áreas. Por isso, tradutores que não conhecem a área precisam pesquisar muito antes de começar. Se o tradutor altera demais um texto muito complexo, ele pode alterar o significado. Não é a mesma coisa que alterar um texto não científico onde o tradutor pode brincar mais com a frase porque sabe que o significado final será o mesmo. Nos artigos, alguns trechos precisam ficar ao pé da letra mesmo, enquanto que as partes da frase que foram 100% genéricas podem ser alteradas.
  5. O cliente acha que sabe mais do que o tradutor. Não queria chegar aqui, mas acontece. Este é o pior caso possível para um tradutor. As críticas costumam ser desrespeitosas e ofensivas e quando o tradutor replica, o cliente costume sumir. Números 1 e 2 estão incluídos nesta categoria, mas tenho outros bem piores. A boa notícia é que consegui justifica cada uma das minhas decisões e não teria feito nada diferente.
  6. O texto original não ajuda. Os editores que não falam o idioma original do texto, não podem comparar o original com a tradução, então podem criticar coisas que também estão no original. Nestes casos, posso incluir o seguinte:
    1. Artigos não editados ou revisados.
    2. Artigos contendo termos ou trechos repetidos ou desnecessários.
    3. Artigos que poderiam ser resumidos a uma página, mas se estendem por 12 páginas para cumprir um requisito.
    4. Textos com trechos em linguagem arcaica ou num estilo obsoleto. Como o estilo deve ser mantido em toda tradução, isso é transferido ao trabalho final.
  7. O cliente mexeu no texto traduzido. Quando há muitos autores, isto é muito comum. O importante é sempre enviar a cópia final para o tradutor (idealmente o revisor, já que deveria ter sido revisado em inglês).

Resumo

Não existe uma solução infalível. Em algum momento, algum artigo vai voltar. O importante é saber, sem sombra de dúvida, que você, o tradutor, fez o melhor que pude e você, o cliente, esclareceu todas as dúvidas do tradutor e aprovou o resultado final. Fora isso, é importante exigir que especifiquem pelo menos alguns dos motivos pelos quais o artigo foi rejeitado e tentar resolver o problema da melhor forma possível. Caso isso não seja o suficiente e o artigo continue sendo redondamente rejeitado, precisará achar os motivos de outra forma (para sua consciência e paz de espírito). Em raros casos em que tudo parece perdido, o trabalho original e/ou a tradução terá que ser refeito por outro profissional.